EXT. Margem do rio - DIA
KARAÍ atravessa o rio de barco, chegando à aldeia.
KARAÍ
Nossa! Tanto tempo que fui embora daqui…
BARQUEIRO
Eu me lembro de você.
KARAÍ
Eu não estou te reconhecendo, devia ser pequenininho quando fui embora… Quem é a sua mãe?
BARQUEIRO
Janaína. Todos estão falando da sua volta. Tinha gente que falava que você tinha morrido.
KARAÍ
Não, estou bem vivo.
BARQUEIRO
Tô vendo.
KARAÍ
Mudou bastante… Não tinha esse píer!
BARQUEIRO
Algumas coisas mudaram, mas quase tudo continua igual, você vai ver.
EXT. Centro da aldeia - DIA
Werá está sentado perto da casa de reza, junto com sua esposa PARAH. Um menino se aproxima correndo.
MENINO
Werá! O Karaí chegou!
WERÁ
Traz ele aqui para a casa de reza
PARAH
Está feliz com a volta do seu amigo?
WERÁ
Sim, estou feliz. Tudo aquilo ficou para trás, é passado.
KARAÍ chega. Se olham em silêncio por alguns instantes. Se abraçam.
WERÁ
Seja bem-vindo.
KARAÍ
Obrigado por me aceitar de volta.
WERÁ
Não tem o que agradecer. Parah! Venha aqui…
KARAÍ
Oi Parah… Bom ver que estão felizes juntos.
PARAH
Sentimos sua falta.
WERÁ
Depois vamos ter tempo para conversar mais. Temos que ir para a casa de reza agora, estamos atrasados, já começaram.
KARAÍ
Estou feliz de estar de volta.
INT. Casa de reza - DIA
A cerimônia diária corre como de costume. Parece que ninguém percebe que KARAÍ está entre os presentes. De repente, JACI, anciã que conduz a cerimônia, gesticula a KARAÍ para vir ao seu lado no centro da casa de reza. Posiciona-o de joelhos à sua frente.
JACI
Grande Espírito da Floresta e do Universo, abençoe seu filho Karaí. Ele traz de volta muitos conhecimentos e ajudará a melhorar a nossa vida.
PARAH
Werá, ele está diferente…
WERÁ
Sim, passou muitos anos com os brancos, muita coisa muda.
JACI continua orando e abençoando KARAÍ ajoelhado à sua frente.
EXT. Terreiro da aldeia - DIA
WERÁ fala aos presentes.
WERÁ
Estamos recebendo de volta à aldeia nosso irmão Karaí. Ele passou muitos anos fora do território e volta disposto a ajudar. Ele vai assumir a vaga de professor na nossa escola. Tem que ser respeitado. Qualquer sentimento que sobrou de acontecimentos passados deve ser esquecido.
Todos aplaudem a fala de Werá.
WERÁ
Quer falar alguma coisa para as pessoas Karaí?
KARAÍ
Obrigado a todos por me acolherem. Me desculpo por qualquer atitude minha do passado que possa ter trazido tristeza. Estou muito feliz de estar de volta. Estou aqui para ajudar a todos. Amanhã já estarei na sala de aula com as crianças.
INT. Escola da aldeia - DIA
Os alunos vão chegando na escola. KARAÍ fala aos alunos.
KARAÍ
Bom dia! Para quem não me conhece meu nome é Karaí. Sou o novo professor. Vamos começar. Cada um fale seu nome e o nome de sua mãe.
Os estudantes se apresentam um a um.
KARAÍ
Nossa primeira atividade será um desenho. Desenhe em seu caderno uma cena da aldeia.
São mostradas cenas da aldeia, em seguida cenas da sala de aula, mostrando alguns dos desenhos.
KARAÍ
Desde sempre, os brancos sempre quiseram nossas terras. Eles criam leis e mais leis. A nossa casa de reza, a nossa língua e cultura são o que nos mantém fortes para lutar contra todo mal dos brancos. Por isso nunca se esqueçam de quem vocês são. Vocês são indígenas originários desta terra.
Os alunos refletem sobre as palavras de KARAÍ.
KAKAI
A aula acabou, estão dispensados. Nos vemos na casa de reza.
EXT. Beira do rio - DIA
WERÁ e KARAÍ estão pescando.
WERÁ
Veja só, KARAÍ, os brancos colocam armadilhas na floresta. Todo dia estão matando os bichos, não sobrará nada para nós. Não respeitam o tempo de procriação.
KARAÍ
Isso é terrível, estão prejudicando a fauna e a flora.
WERÁ
Fauna e flora? Você quer dizer os animais e as plantas? (Werá sorri)
KARAÍ
Desculpe, fiquei muito tempo com os brancos…
WERÁ
Mas não é só isso. Você percebeu que a cidade está se aproximando do nosso território? As construtoras são terríveis. Todos são contra a nossa demarcação. Tem uma mineradora me pressionando, não sei mais o que fazer.
KARAÍ
Calma, Werá. Temos que falar na prefeitura ou procurar um advogado…
WERÁ
Eles são todos cúmplices… Essa modernidade que a cada dia se aproxima mais das aldeias me assusta. Tenho medo do futuro das crianças.
KARAÍ
A modernidade traz coisas boas também!
WERÁ
O que? Celular? Essas tecnologias todas, estão matando a nossa cultura, isso sim. Os jovens não se interessam mais pela casa de reza, nos conselhos da anciã, nos remédios, nas histórias do nosso povo.
KARAÍ
Verdade.
INT. Casa de WERÁ - NOITE
WERÁ e PARAH discutem.
PARAH
Werá, quer comer alguma coisa?
WERÁ
Não…
PARAH
Que preocupação é essa?
WERÁ
Estou preocupado com o futuro da aldeia… São muitas coisas que me preocupam.
PARAH
Então me fala o que está acontecendo… Sou sua esposa, preciso saber.
WERÁ
É o de sempre, nada de novo. A empreiteira, a mineradora, sempre estão pressionando, processos contra nossa comunidade, é isso.
PARAH
E procurar um advogado?
WERÁ
Não sei… Eu penso que são todos cúmplices… Agora vou fumar, rezar um pouco e me deitar.
PARAH
Tá bom! Vou terminar de fazer a última cesta e já vou deitar também.
Werá e PARAH conversam deitados, sérios. Os dois olham para o teto.
WERÁ
Mais um mês… Quase um ano que casamos…
PARAH
Eu sei… Estava sentindo que esse mês ia acontecer… Desculpe…
WERÁ
Tenho que acordar cedo amanhã…
Werá se vira para o lado e dorme.
EXT - Beira do rio - DIA
WERÁ e KARAÍ estão pescando
WERÁ
Lembra que a gente vinha muito nesse rio quando criança?
KARAÍ
É mesmo, né? A gente ficava até anoitecer.
WERÁ
Tempos bons… Nenhuma preocupação…
KARAÍ
Lembro uma vez, seu pai foi até a minha casa perguntando de você, e o meu pensava que eu estava na sua casa… Seu pai era um homem muito bom, um grande líder. Ainda não consigo entender o fato dele ter morrido tão de repente.
WERÁ
Sim. Estava bem, de repente começou com dores, perdeu a vontade de comer… Um dia amanheceu morto. Seu pai também faleceu do nada…
KARAÍ
É. Outra morte que me marcou foi do pai do Nhamandu.
WERÁ
Verdade! Até hoje ninguém sabe quem matou ele. Um caçador ou palmiteiro talvez.
KARAÍ
Penso que pode ter sido alguém aqui da aldeia mesmo…
WERÁ
(Sem dar continuidade ao assunto) Vamos embora, já pegamos muito peixe.
INT - Casa de JACI - DIA
PARAH se aconselha com JACI
JACI
(sentada à beira do fogo com seu cachimbo) Pode sentar aqui perto de mim.
PARAH
Faz dias que não me sinto bem.
JACI começa a fazer a defumação com seu cachimbo, soprando fumaça em PARAH, se concentrando e rezando. As duas estão sentadas perto da fogueira.
JACI
Esse seu problema não é simples.
PARAH
Como assim?
JACI
Tem mais coisa.
PARAH
Não entendo.
JACI
Eu tive uma visão. Vou te passar um chá de 3 ervas. É uma preparação muito forte. Você vai ter que tomar de manhã e à noite todos os dias. Não pode interromper. Não é um remédio comum esse. Muito amargo. Vai te fazer vomitar. Ele só vai fazer efeito se você tiver fé. Seu corpo vai ficar cada vez mais fraco, mas se você tiver fé vai sobreviver e vai conseguir engravidar. Está com medo?
PARAH
Meu único medo é não conseguir engravidar.
EXT - Floresta - DIA
WERÁ e KARAÍ encontram palmiteiros conhecidos na trilha. KARAÍ dirije-se a um deles, Roberto.
WERÁ
Roberto…
ROBERTO
Cacique…
WERÁ
Vocês sabem que é proibido cortar palmito aqui no território…
ROBERTO
Achei que essa baixada fosse fora do território.
WERÁ
Não, tudo pra cá do pinheiral já é nosso.
ROBERTO
Pois é… Sabe que nós também passamos necessidades?
WERÁ
A Ambiental me disse para chamar eles quando vocês voltassem…
ROBERTO
Também temos direito nessa terra.
WERÁ
Antes de vocês brancos chegarem essa terra já era nossa.
ROBERTO
Antes de existir branco ou índio existia Deus e a natureza… Nós também temos direito de colher o que Deus oferece na natureza.
WERÁ
Levem o que já está cortado, mas tem que ir embora daqui.
ROBERTO
Tudo bem Cacique… Já tamo indo…
Os palmiteiros recolhem os palmitos que cortaram e se retiram com olhares desafiadores.
WERÁ
(para Karaí) Se fosse a gente nas terras deles, iam receber a gente com bala, isso sim.
KARAÍ
Verdade…
INT - Escola - DIA
KARAÍ e PARAH conversam na escola.
KARAÍ
Desde a minha chegada não consegui conversar com você. Como vocês estão?
PARAH
Tudo bem… Só essa tensão do Werá com os brancos que me deixa nervosa.
KARAÍ
Quero ajudar se der.
PARAH
Isso me deixa preocupada, achar uma forma de ajudar o Werá.
KARAÍ fecha a porta. Muda de atitude, sério e incisivo, quase agressivo. Segura as mãos de PARAH. Ela tira suas mãos e se vira de lado.
KARAÍ
Você não quer falar sobre o que aconteceu entre a gente? Você falou que ia me esperar…
PARAH
Você demorou muito para voltar, tantos anos sem se comunicar! Tinha dúvida até se você tava vivo ou não!
KARAÍ
Tive que ir embora às pressas. Até ameaça de morte eu tive. Você ama o Werá?
PARAH
Amo! Werá sempre me tratou com respeito, é o que importa. Estamos tentando ter um filho. Nunca foi para eu e você termos ficado juntos! Foi um erro.
KARAÍ
Te trouxe um presente…
KARAÍ entrega a PARAH um pequeno embrulho. Ela abre. É um colar, uma corrente de metal com um pequeno pendente de coração. Os dois ficam em silêncio por alguns momentos. PARAH abraça KARAÍ repentinamente. Confuso, KARAÍ a abraça de volta e começa a aproximar seu rosto do rosto dela. PARAH se desvencilha do abraço e vai embora sem falar mais nada. Sai correndo da escola, o que WERÁ observa de longe.
EXT-Lado de fora de uma casa da aldeia - DIA
Duas jovens, JACIARA E SANDRA, conversam sentadas no chão enquanto fazem artesanato.
SANDRA
Me passe a faca.
JACIARA
Aqui.
SANDRA
Quantos você fez?
JACIARA
Ontem fiz quinze.
SANDRA
Rápido…
JACIARA
Quero aprender fazer o brinco de ararinha.
SANDRA
É fácil, depois te ensino.
JACIARA
Você acha o Karaí bonito?
SANDRA
Não sei. Às vezes acho que a cara dele parece um cachorro. Às vezes acho ele bonito.
JACIARA
(rindo) Eu acho ele bonito.
SANDRA
Ele era namorado da Parah. Antes de você mudar para cá.
JACIARA
Não sabia…
As duas continuam a fazer artesanato.
INT. Casa de reza - DIA
Todos estão na casa de reza para uma cerimônia de proteção. PARAH não está presente, ficou em casa, pois se sente mal pelos efeitos colaterais do chá receitado por JACI.
WERÁ
Gratidão a todos que estão aqui. Jaci vai fazer uma reza para a nossa proteção contra os brancos.
JACI se levanta e se posiciona no centro da casa de reza.
JACI
Nhamandu, pegue meu cachimbo e meu cajado.
NHAMANDU
Aqui, minha mãe!
JACI fuma seu cachimbo e começa a falar.
JACI
Deus Criador do Universo, das plantas medicinais, dos seres da floresta, proteja nossa aldeia contra todo esse mal que nos persegue.
Silêncio total na casa de reza. Os presentes estão posicionados em roda. JACI anda pela roda e pára à frente de cada um, exala fumaça de seu cachimbo e faz orações em Guarani em voz bem baixa, sussurrando orações ao ouvido de cada pessoa, como faz de costume. Ao se aproximar de KARAÍ, dá a ele um recado falando ao seu ouvido.
JACI
Amanhã te aguardo em minha casa de tarde. Muito importante. Não comente com ninguém.
Jaci segue a cerimônia.
INT- Casa de JACI - DIA
A casa de JACI fica próxima da aldeia, no meio da mata, um pouco retirada. KARAÍ está ajoelhado à frente de JACI, com as mãos sobre as mãos dela, que segura as mãos dele e ora com os olhos fechados.
JACI
Tive uma visão. Vi um amor.
KARAÍ
Quem é?
JACI
Não é assim que funciona. Não vejo rostos. Ouça com atenção.
KARAÍ
Tá bom.
JACI
Seu amor parece não correspondido mas a verdade é outra. Ela quer ficar com você.
KARAÍ
Tem certeza?
JACI
(pausadamente, entre leves assopros de fumaça do cachimbo) Não questione. Foram feitos um para o outro. Você só vai alcançar o que quer com a verdade! Fale a verdade e conseguirá o que quer. Mentiras e covardia não têm lugar na alma de um guerreiro.
JACI gesticula a NHAMANDU e este entrega a ela uma pequena trouxa de tecido. JACI abre a trouxa e mostra o conteúdo a KARAÍ.
JACI
Aqui, leve isso com você. É um amassado de ervas. Quando precisar de coragem para falar a verdade, mastigue tudo e engula de uma vez 10 minutos antes da conversa.
KARAÍ guarda a trouxa de ervas. JACI conclui as orações…
JACI
Pronto. Siga seu caminho com fé!
KARAÍ
Obrigado!
KARAÍ se retira.
NHAMANDU
Ele mudou muito. Nem parece a mesma pessoa.
JACI
Pois é…
NHAMANDU
Mãe… Penso muito naquilo que fala para mim…
JACI
O que?
NHAMANDU
Que terei minha oportunidade aqui na aldeia… Tenho dúvida… Na minha cabeça só me enxergam como Nhamandu, o aleijado.
JACI
Confie em mim.
INT- Casa de JACI - DIA
Werá está ajoelhado à frente de Jaci. Ela tem nas mãos um ramo de ervas amarradas com o qual bate nas suas costas com bastante força enquanto reza e fuma seu cachimbo. De repente pára e senta à sua frente ainda fumando seu cachimbo.
JACI
Você está perdendo sua autoridade na aldeia.
WERÁ
Como assim?
JACI
Estão duvidando da sua capacidade de liderança.
WERÁ
Quem?
JACI
Todo mundo.
WERÁ
Como você sabe?
JACI
Não questione.
WERÁ concorda com um aceno de cabeça, resignado.
JACI
Você tem que ser firme e severo. Confie na sua intuição. Pense bem, mas uma vez que tiver uma opinião não pode mudar. É sinal de fraqueza.
WERÁ concorda novamente em silêncio.
JACI
Tem que mostrar sua força e domínio.
Jaci continua as orações.
INT. - Casa de WERÁ - DIA
WERÁ está sozinho em casa. Está procurando algo. Abre uma gaveta. Encontra o colar que KARAÍ deu a PARAH.
INT-Casa de WERÁ - DIA
PARAH está terminando de preparar o almoço. WERÁ entra pela porta.
PARAH
A comida está quase pronta.
WERÁ
O que tem?
PARAH
Macarrão e frango.
WERÁ começa a comer. PARAH não come. Está se sentindo doente.
WERÁ
Como foi na escola hoje?
PARAH
Foi tudo bem.
WERÁ
Karaí estava lá?
PARAH
Estava.
WERÁ
Você não vai comer?
PARAH
Não agora. Não estou me sentindo bem.
WERÁ
Você ajudou ele?
PARAH
Só no final, ajudei arrumar as coisas para a aula de amanhã. Não precisei ajudar com as crianças.
KARAÍ
E aconteceu alguma coisa?
PARAH
Não. Por que pergunta?
WERÁ
Te vi sair correndo de lá, achei que podia ter acontecido alguma coisa. Nunca te vi correr.
PARAH
Eu corro, sim, de vez em quando. Não aconteceu nada…
WERÁ
Estou sem fome. Tenho que sair.…
WERÁ deixa o prato pela metade e sai. PARAH vomita no chão.
Cena exclusiva para final alternativo
EXT - Floresta - DIA
WERÁ está andando dentro da mata, procurando os palmiteiros. Escuta um tiro. Caminha naquela direção. Dentro da mata vê o grupo de palmiteiros em um descampado Estão caçando. WERÁ dispara uma flecha na direção deles. A flecha cai a alguns metros do grupo.
ROBERTO
Que merda é essa?
ADILSON
(tirando um revolver da cintura) Estão atacando a gente!
Olham na direção de onde veio a flecha e lá está WERÁ, segurando o arco no alto da cabeça, caminhando lentamente em direção a eles.
ROBERTO
Não, espera!
Werá chega até o grupo.
ROBERTO
Ficou louco?
WERÁ
Foi só para avisar que eu estava chegando. Preciso falar com você.
ROBERTO
O que é?
WERÁ
(apontando para a arma na cintura de Roberto) Preciso de uma arma emprestada.
ROBERTO olha em silêncio para WERÁ por alguns momentos. Tira a arma da cintura e estende para ele.
ROBERTO
Tem que me devolver logo. Só está com duas balas.
WERÁ
Logo devolvo. Obrigado.
Roberto não responde, fica silencioso. WERÁ entra na mata novamente, observado pelo grupo.
ADILSON
Esse índio é louco… Você acha que ele quer matar alguém?
ROBERTO
Só pode ser…
INT. Escola - DIA
WERÁ entra na sala de aula e encontra KARAÍ corrigindo avaliações.
WERÁ
Está ocupado?
KARAÍ
Corrigindo provas. Mas posso fazer mais tarde.
WERÁ
Vamos comigo até a beira do rio.
KARAÍ
Claro. Algo urgente?
WERÁ
Quero te mostrar uma coisa.
KARAÍ
Me dê um minuto, só preciso guardar essas provas.
KARAÍ guarda as provas em uma gaveta na sala de aula. Se dirige para a sala ao lado e ingere o amassado de ervas que Jaci tinha dado para ele. WERÁ, discretamente, também ingere um amassado de ervas enquanto KARAÍ não volta.
EXT. Beira do rio - DIA
WERÁ e KARAÍ conversam. KARAÍ se sente entorpecido pela substância que ingeriu.
WERÁ
Aqui é o lugar onde meu pai foi encontrado morto.
KARAÍ
Pensei que ele tinha morrido durante a noite dormindo.
WERÁ
Não. Ele estava com febre, se levantou de madrugada, falou alguma coisa sem sentido para minha mãe, pintou o rosto e saiu andando. Eu estava dormindo, não vi nada.
KARAÍ
Quem encontrou ele?
WERÁ
Nhamandu. Falou que encontrou ele caído no barranco, bateu a cabeça numa pedra. Ninguém mais viu nada.
Ficam em silêncio por alguns momentos.
KARAÍ
Eu também tenho uma coisa para te falar.
WERÁ
O que?
KARAÍ
Eu ainda amo a Parah. E ela me ama também.
WERÁ
Eu sabia que tinha algo errado. Você sabe que não vai poder ficar na aldeia, tem que ir embora. Ela não te ama!
KARAÍ
E se eu não for embora?
WERÁ
Eu mato vocês dois.
KARAÍ
Ela não tem culpa. Nós fomos feitos um para o outro.
WERÁ
Cala a boca! Porque você acha que ela te ama? Porque você deu isso para ela?
WERÁ tira do bolso o colar que KARAÍ tinha dado a PARAH. Joga o colar barranco abaixo. Tira uma faca da cintura, corta a palma da mão, esfrega o sangue no rosto, observado por KARAÍ, que fica assustado com a situação. WERÁ se retira em seguida andando rapidamente em direção à aldeia. KARAÍ desce para a beira do rio para procurar o colar.
INT. - Casa de WERÁ - DIA
WERÁ entra pela porta. PARAH está deitada na cama.
WERÁ
Falei com o KARAÍ. Já estou sabendo de tudo. Ele vai embora.
PARAH está imóvel na cama.
WERÁ
Você não vai falar nada?
WERÁ vira PARAH na cama. Percebe que está morta. Começa a gritar.
WERÁ
Não! Não! Não! Não! Não!
WERÁ se ajoelha e dá um beijo na boca de PARAH. O rosto e pescoço de PARAH ficam sujos com o sangue de WERÁ, que ainda sangra do ferimento da mão. WERÁ sai apressadamente pela porta.
EXT - Mata nas proximidades da casa de WERÁ - DIA
KARAÍ se dirige à casa de WERÁ vindo pela mata. Ainda a certa distância, quase chegando, vê WERÁ saindo da casa e caminhando apressadamente em direção ao outro lado da mata, em direção à casa de JACI. KARAÍ entra na casa.
INT - Casa de WERÁ - DIA
KARAÍ encontra PARAH deitada, morta. Ele a abraça.
KARAÍ
Por quê? Por quê?
KARAÍ ouve um ruído. Olha em direção à porta, não vê nada. Ajeita PARAH suavemente na cama e acaricia seu rosto. Se levanta com a intenção de checar o lado de fora da casa, mas quando vira em direção à porta WERÁ já está em pé bem à sua frente e dá uma facada em seu coração. KARAÍ segura a mão de WERÁ com as duas mãos e olha em seus olhos sem falar nada. Respira fundo algumas vezes lentamente enquanto vai perdendo a força nas pernas e finalmente perde os sentidos e cai lentamente sendo amparado por WERÁ, que o deixa deitado no chão. WERÁ sai correndo pela porta. Chega à beirada do rio, entra em uma canoa e sai remando rio abaixo.
Cena exclusiva para final alternativo
INT - Casa de WERÁ - DIA
KARAÍ encontra PARAH deitada, morta. Ele a abraça.
KARAÍ
Por quê? Por quê?
KARAÍ ouve um ruído. Olha em direção à porta, não vê nada. Ajeita PARAH suavemente na cama e acaricia seu rosto. Se levanta com a intenção de checar o lado de fora da casa, mas quando vira em direção à porta WERÁ já está em pé bem à sua frente com um revolver apontado para seu rosto.
KARAÍ
Você matou ela…
WERÁ
Cala a boca! Ajoelha com as mãos pra trás.
Werá amarra as mãos de Karaí e deixa um pedaço de corda mais longo, que segura e puxa para cima, para que Karaí se levante. Continua com a arma apontada para a cabeça de Karaí.
WERÁ
Levanta! Vamos andando!
Andam silenciosamente até a beira do rio. Werá força Karaí a se ajoelhar. Arrasta uma canoa e posiciona na beira do rio, parcialmente dentro da água.
WERÁ
Levanta! Dentro da canoa!
Karaí se ajoelha dentro da canoa, ainda com as mãos amarradas. Ele começa a entoar um canto bem suave com os olhos fechados, como se fosse uma oração. Werá pega a faca e corta a corda prendendo os pulsos de Karaí.
WERÁ
Se algum dia você voltar aqui eu te mato!
Werá então empurra a canoa em direção ao meio do rio. Karaí perde momentaneamente o equilíbrio mas segura as bordas da canoa e se reposiciona sentado, recuperando a estabilidade. A canoa é levada pela correnteza. Werá senta ajoelhado olhando a canoa se afastar, até perdê-la de vista. Olha para o lado e vê o remo, que ficou na margem do rio. Fica olhando para o revólver em sua mão sobre seu colo. Fecha os olhos e também começa a entoar um canto suave e triste. A cena escurece, ainda sendo ouvido o canto de Werá por alguns instantes.
Cena para final original
EXT - Cemitério da aldeia - DIA
PARAH e KARAÍ acabaram de ser sepultados. Algumas pessoas choram ajoelhadas ao lado das sepulturas. Um grupo de líderes da comunidade reunido um pouco mais distante discute a decisão de quem vai ser o novo cacique com a fuga de WERÁ. MAURO - que estava junto com as pessoas ao lado das sepulturas - levanta-se e junta-se ao grupo de líderes. JACI também está presente.
MAURO
Conseguiram decidir alguma coisa?
SERGIO
Ainda não.
JURANDIR
Tem três pessoas querendo assumir a liderança da aldeia.
SERGIO
Jaci deve encontrar a resposta nas orações.
MAURO
E todo mundo está de acordo?
SERGIO
Sim.
MAURO
(fala a JACI) A senhora concorda?
JACI
Preciso de uma semana de recolhimento para interpretar minhas visões, é uma decisão muito importante. E preciso da garantia de vocês que não vai ter questionamento sobre a decisão.
Todos se entreolham e concordam com um gesto de cabeça.
Cena para final alternativo - só muda a descrição da cena em relação à cena original
EXT - Cemitério da aldeia - DIA
PARAH e WERÁ acabaram de ser sepultados. Algumas pessoas choram ajoelhadas ao lado das sepulturas. Um grupo de líderes da comunidade reunido um pouco mais distante discute a decisão de quem vai ser o novo cacique. MAURO - que estava junto com as pessoas ao lado das sepulturas - se levanta e se junta ao grupo de líderes. JACI também está presente.
MAURO
Conseguiram decidir alguma coisa?
SERGIO
Ainda não.
JURANDIR
Tem três pessoas querendo assumir a liderança da aldeia.
SERGIO
Jaci deve encontrar a resposta nas orações.
MAURO
E todo mundo está de acordo?
SERGIO
Sim.
MAURO
(fala a JACI) A senhora concorda?
JACI
Preciso de uma semana de recolhimento para interpretar minhas visões, é uma decisão muito importante. E preciso da garantia de vocês que não vai ter questionamento sobre a decisão.
Todos se entreolham e concordam com um gesto de cabeça.
INT - Casa de JACI - DIA
JACI está fazendo um tratamento em NHAMANDU. Dá para ele beber uma bebida em uma cuia. Faz algumas orações. Pega sua mão. Aperta a unha de um de seus dedos com força.
JACI
Sente dor?
NHAMANDU
Não.
JACI
Já fez efeito. Vamos fazer agora. Feche seus olhos e não pense em nada.
NHAMANDU
Tá bom.
NHAMANDU aguarda com os olhos fechados e parece entorpecido. Está deitado de lado, com um tronco entre suas coxas. Uma corda está amarrada ao redor de seus joelhos. JACI se coloca em pé segurando a parte de cima da corda, apóia o pé no joelho de cima e em um movimento decidido puxa a corda para cima lentamente mas com força, esticando sua perna, aproximando os joelhos de NHAMANDU. NHAMANDU dá um grito de dor que ecoa na mata.
INT - Casa de reza - DIA
JACI está ajoelhada sentada em seus calcanhares, olhos fechados, meditando, com o cocar cerimonial em um tronco fincado à sua frente. Todos os presentes sentados em uma roda. MAURO, SERGIO e JURANDIR estão sentados em uma linha no centro da roda.
JACI
Fiz um recolhimento por uma semana e tive a visão do próximo líder da aldeia. É a decisão dos nossos ancestrais. Preciso que confirmem um a um, na frente de todos os presentes, que irão respeitar a decisão. Mauro?
MAURO
Sim.
JACI
Sérgio?
SERGIO
Sim.
JACI
Jurandir?
JURANDIR
Sim.
JACI
(se dirigindo aos demais presentes) Todos aceitam a decisão que vai ser revelada?
Todos os presentes concordam - alguns acenam afirmativamente com a cabeça, alguns dizem “SIM”. JACI pega o cocar em suas mãos.
JACI
Grande espírito Criador do mundo, nosso Criador, espíritos da floresta, dos rios, da terra… Revelo agora a decisão de nossos ancestrais.
JACI caminha lentamente até NHAMANDU e coloca o cocar em sua cabeça. Ele parece surpreso de início mas fecha os olhos e respira fundo, com o semblante sereno. SÉRGIO, MAURO e JURANDIR estão surpresos e visivelmente desapontados. Um burburinho se inicia entre os presentes. MAURO se levanta.
MAURO
Silêncio! Silêncio! Em nome de nosso conselho de liderança confirmo que aceitamos NHAMANDU como o cacique da aldeia.
NHAMANDU se levanta e caminha até o centro da roda. Caminha firmemente com postura ereta, sem mancar. MAURO se aproxima de NHAMANDU e os dois trocam um abraço formal. Começa uma música cantada pelo coral. NHAMANDU fica em pé com os braços abertos, é colocado um manto em seus ombros e também são entregues a ele um caximbo cerimonial (Petiguã) e um cajado. NHAMANDU faz uma saudação a JACI, ao conselho de liderança e aos demais, cruzando os braços sobre seu peito.
É mostrado um recorte de cenas enquanto a música toca, mostrando JACI conversando com PARAH, KARAÍ, WERÁ, NHAMANDU, e diversas outras pessoas da comunidade, mostrando seu domínio e influência sobre a comunidade.
Cena final na versão original
EXT - Posto de Gasolina - DIA
WERÁ, sujo e maltrapilho, se aproxima de um caminhoneiro que está prestes a sair de viagem.
WERÁ
Licença.
CAMINHONEIRO
Pois não?
WERÁ
Preciso uma carona.
CAMINHONEIRO
Estou indo para Campo Grande. Mas só tenho lugar junto com a carga.
WERÁ
Pode ser.
CAMINHONEIRO
Sobe aí. Vou sair em 10 minutos. Se a polícia parar e te achar tem que falar que subiu sem eu ver.
WERÁ
Tá bom.
WERÁ se acomoda na carroceria junto com a carga. O caminhoneiro termina de checar os pneus e sai em viagem.
(Fim)
Cena final na versão alternativa
EXT - Posto de Gasolina - DIA
KARAÍ, sujo e maltrapilho, se aproxima de um caminhoneiro que está prestes a sair de viagem.
KARAÍ
Licença.
CAMINHONEIRO
Pois não?
KARAÍ
Preciso uma carona.
CAMINHONEIRO
Estou indo para Campo Grande. Mas só tenho lugar junto com a carga.
KARAÍ
Pode ser.
CAMINHONEIRO
Sobe aí. Vou sair em 10 minutos. Se a polícia parar e te achar tem que falar que subiu sem eu ver.
KARAÍ
Tá bom.
KARAÍ se acomoda na carroceria junto com a carga. O caminhoneiro termina de checar os pneus e sai em viagem.
(Fim)