A CURANDEIRA Roteiro Adaptado de “A Cartomante” De Machado de assis Cleiray Werá Fernando Tukubo André Martins Pereira A Curandeira (Adaptação de "A Cartomante" de Machado de Assis para Contexto Indígena) Sinopse Na aldeia Yxyry Porã, situada nas proximidades de um rio, a vida segue o ritmo das tradições ancestrais, pontuada pelos desafios do mundo moderno que se aproxima cada vez mais. A história começa com o retorno de Karaí, um jovem professor indígena que passou os últimos anos estudando na cidade. É filho de um dos caciques anteriores. Seu regresso é marcado por uma mistura de expectativa e apreensão, pois ele traz consigo não apenas conhecimentos acadêmicos, mas também uma visão de mundo transformada por sua experiência urbana. Karaí é recebido por Werá, seu amigo de infância e atual cacique da aldeia. Werá, orgulhoso e dedicado à preservação das tradições, vê em Karaí uma ponte entre o velho e o novo, uma esperança para fortalecer a educação na comunidade sem perder suas raízes. Ao mesmo tempo sente uma inevitável estranheza com esse contato - Karaí teve um relacionamento breve no passado com Parah, a atual esposa de Werá. Nos primeiros dias após seu retorno, Karaí se reintegra à vida da aldeia, assumindo o papel de professor na pequena escola local. Ele observa as mudanças sutis que ocorreram em sua ausência: o avanço da tecnologia representado por alguns celulares e uma antena de internet recém-instalada; a presença mais frequente de barcos de turistas no rio; e os rumores sobre empresas imobiliárias e empreiteiras lutando na justiça contra a demarcação definitiva das terras indígenas - desejam lotear as terras e comercializar para turistas. Paralelamente, caçadores e palmiteiros com frequência entram ilegalmente nas terras indígenas, sempre armados, já tendo havido vários conflitos diretos com moradores da aldeia. Uma empreiteira começa a fazer contatos com a liderança da aldeia, prometendo desenvolvimento e riqueza em troca de concessões para lotear parte da terra, comercializar os lotes e construir casas de veraneio. Esta situação coloca Werá sob intensa pressão, dividido entre a preservação das terras ancestrais e as promessas de melhoria de vida para seu povo. Werá, sobrecarregado com as responsabilidades de liderança, torna-se cada vez mais distante de Parah. Apesar disso ele e Parah estão há quase um ano tentando ter um filho sem sucesso, o que é uma causa adicional de tristeza para os dois. Em meio a esse cenário de mudanças, Karaí e Parah sentem um resquício de emoções do passado. Inicialmente, suas conversas giram em torno das ameaças à aldeia, bem como assuntos relacionados a escola, haja visto que Parah faz trabalho voluntário com os alunos. No entanto, em determinado momento percebem uma conexão mais profunda. Parah, insatisfeita em seu casamento arranjado com Werá, encontra em Karaí um espírito afim, alguém que compreende seu desejo de preservar as tradições, mas também de abraçar novas possibilidades. Jaci, a anciã e curandeira da aldeia, emerge como uma figura central neste momento de confusão, incertezas e transição. Respeitada por sua sabedoria e conexão com os espíritos ancestrais, ela é frequentemente consultada tanto para questões comunitárias quanto pessoais de muitos moradores da aldeia. Mais especificamente, seus conselhos e visões começam a influenciar as decisões da comunidade, incluindo as vidas pessoais de Karaí, Parah e Werá. Jaci é viúva de um dos antigos Caciques da Aldeia, que faleceu há muitos anos em uma emboscada, sem nunca ter sido descoberto quem o matou, a culpa recaindo sempre em alguém de uma aldeia rival próxima ou caçadores e palmiteiros. Sua morte trouxe problemas em sua sucessão, com grupos familiares disputando a liderança na aldeia ao longo dos anos. Werá já é o quarto Cacique a suceder o marido de Jaci, sendo que os três caciques anteriores faleceram de doenças misteriosas. Jaci é auxiliada nos rituais por seu único filho Nhamandu, que nasceu com um problema no quadril que atrapalhava sua locomoção, fazendo-o andar mancando, o que o impedia de participar em danças, caçadas ou qualquer outra atividade física de maior intensidade, tendo sempre sofrido hostilidades quando era criança e sendo sempre deixado em segundo plano nas divisões de trabalho e cargos da aldeia. Em uma das visitas de Parah Jaci realiza um ritual envolvendo ervas sagradas e cânticos ancestrais, e informa a Parah uma visão de um futuro brilhante, onde ela encontrará verdadeira felicidade e realização, mas uma atitude de mudança radical é necessária de sua parte. Parah interpreta isso como um sinal para seguir seus sentimentos por Karaí, embora Jaci mantenha suas palavras intencionalmente ambíguas. Outra questão é a dificuldade de Parah engravidar, motivo pelo qual busca com frequência a orientação da curandeira. Jaci finalmente fornece a Parah um preparado de ervas para ser tomado diariamente, que segundo ela irá devolver a ela a fertilidade. Porém, alerta que o preparado é muito forte e causará vômitos diários e dores de cabeça, além de deixá-la extremamente fraca. Diz que são efeitos normais e que se tiver fé terá a força necessária para suportar e finalmente passar pela transformação. Parah adere ao tratamento e toma as ervas todos os dias, porém sua saúde vai claramente se deteriorando ao longo do tempo em virtude do forte efeito das ervas. Enquanto isso, Karaí luta internamente com seu ceticismo em relação às práticas espirituais tradicionais e seus sentimentos por Parah. Rumores sobre a proximidade entre Karaí e Parah começam a circular na aldeia. Durante uma cerimônia Jaci convida Karaí à sua casa para uma consulta. O convite é conflituoso para Karaí, uma vez que ele guarda um certo ceticismo em relação às práticas curandeirísticas tradicionais após o tempo passado na cidade. Porém decide por ir, um pouco por ter vontade de preservar as tradições, mas também por estar confuso quanto à propriedade de seus sentimentos por Parah. Em sua visita a Jaci, a curandeira realiza um elaborado ritual, invocando os espíritos ancestrais. Após um tempo em transe, Jaci oferece a Karaí uma visão enigmática: ela fala de um grande desafio que ele deve enfrentar, da importância da coragem e da verdade, de corações entrelaçados e de um destino que não pode ser evitado. Karaí, desesperado por orientação, interpreta as palavras de Jaci como um sinal de que deve ser honesto com Werá sobre seus sentimentos por Parah. O clímax da história ocorre após uma importante cerimônia tradicional, organizada para pedir proteção aos espíritos contra as ameaças que cercam a aldeia. Toda a comunidade está reunida, incluindo representantes de aldeias vizinhas. A tensão é palpável, com Jaci liderando os rituais, Nhamandu auxiliando na preparação das oferendas, e Karaí observando tudo, porém sentindo a falta de Parah, que não está presente na cerimônia. Jaci faz revelações sobre o futuro da aldeia, fala sobre mudanças, traição, perdão e redenção. Após o final da cerimônia Karaí, movido pela fala de Jaci, decide que é o momento de falar com Werá. Ao mesmo tempo Werá decide confrontar Parah e Karaí, também motivado por orientações que recebeu de Jaci em uma sessão de aconselhamento. Em uma conversa na beira do Rio onde a verdade é trazida à tona, Karaí e Werá se desentendem, resultando em uma ameaça de morte de Werá a Karaí caso esse último não fosse embora para nunca mais voltar. Karaí caminha em direção à saída da terra indígena, mas pouco depois volta por dentro da mata até as proximidades da casa de Werá. Fica observando a casa na esperança de ver Parah mais uma vez antes de ir embora. Werá encontra Parah morta em sua casa, resultado da debilidade causada pelo medicamento oferecido por Jaci. Sai de casa, observado por Karaí. Karaí entra na casa pouco depois, também encontrando Parah sem vida, presumindo que tivesse sido morta por Werá. Fica aterrorizado. Ouve um barulho. Levanta e se vira. É Werá, que voltou silenciosamente. Está diante dele com uma faca na mão. Sem falar nenhuma palavra Werá enfia a faca no coração de Karaí, que morre quase que imediatamente. Após olhar para os dois corpos Werá sai correndo em direção ao rio, onde, enlouquecido, pega uma canoa e sai em fuga remando rio abaixo sem destino. A aldeia, já ameaçada externamente, agora se vê dilacerada internamente. Após os funerais de Karaí e Parah e com o desaparecimento/fuga de Werá, Jaci em seu papel de líder espiritual guia a aldeia através deste momento de crise, servindo de líder temporariamente. Ela ressalta como a tragédia pessoal reflete os desafios maiores que a comunidade enfrenta: a necessidade de equilibrar tradição e mudança, lealdade e desejo pessoal, unidade e individualidade. A história se encerra com uma cerimônia mostrando Jaci nomeando seu filho Nhamandu como o novo cacique da aldeia, o que é uma surpresa para todos, haja visto que antes da cerimônia três outras pessoas tinham se candidatado ao cargo, e o escolhido iria ser anunciado finalmente por Jaci em cerimônia, presumidamente por decisão dos espíritos dos ancestrais em comunicação com ela. A narrativa deixa o espectador refletindo sobre os custos do progresso, o poder das tradições e a complexidade das relações humanas em um mundo em constante mudança. Além da dúvida - ou constatação - de que Werá, Karaí e Parah teriam sido manipulados por Jaci num plano frio e calculista para colocar o poder nas mãos de seu filho Nhamandu. FINAL ALTERNATIVO DA HISTÓRIA A possibilidade de um final alternativo da história surgiu em discussões durante a fase de desenvolvimento da história, no sentido de disponibilizar uma linha narrativa que não contivesse uma ação criminosa por parte de Werá. No final alternativo Werá bane Karaí da aldeia, lançando-o ao rio em uma canoa sem remo, sendo que Karaí sobrevive. Em seguida Werá tira a própria vida. ============================== EXT. Margem do rio - DIA KARAÍ atravessa o rio de barco, chegando à aldeia. KARAÍ Nossa! Tanto tempo que fui embora daqui… BARQUEIRO Eu me lembro de você. KARAÍ Eu não estou te reconhecendo, devia ser pequenininho quando fui embora… Quem é a sua mãe? BARQUEIRO Janaína. Todos estão falando da sua volta. Tinha gente que falava que você tinha morrido. KARAÍ Não, estou bem vivo. BARQUEIRO Tô vendo. KARAÍ Mudou bastante… Não tinha esse píer! BARQUEIRO Algumas coisas mudaram, mas quase tudo continua igual, você vai ver. EXT. Centro da aldeia - DIA Werá está sentado perto da casa de reza, junto com sua esposa PARAH. Um menino se aproxima correndo. MENINO Werá! O Karaí chegou! WERÁ Traz ele aqui para a casa de reza PARAH Está feliz com a volta do seu amigo? WERÁ Sim, estou feliz. Tudo aquilo ficou para trás, é passado. KARAÍ chega. Se olham em silêncio por alguns instantes. Se abraçam. WERÁ Seja bem-vindo. KARAÍ Obrigado por me aceitar de volta. WERÁ Não tem o que agradecer. Parah! Venha aqui… KARAÍ Oi Parah… Bom ver que estão felizes juntos. PARAH Sentimos sua falta. WERÁ Depois vamos ter tempo para conversar mais. Temos que ir para a casa de reza agora, estamos atrasados, já começaram. KARAÍ Estou feliz de estar de volta. INT. Casa de reza - DIA A cerimônia diária corre como de costume. Parece que ninguém percebe que KARAÍ está entre os presentes. De repente, JACI, anciã que conduz a cerimônia, gesticula a KARAÍ para vir ao seu lado no centro da casa de reza. Posiciona-o de joelhos à sua frente. JACI Grande Espírito da Floresta e do Universo, abençoe seu filho Karaí. Ele traz de volta muitos conhecimentos e ajudará a melhorar a nossa vida. PARAH Werá, ele está diferente… WERÁ Sim, passou muitos anos com os brancos, muita coisa muda. JACI continua orando e abençoando KARAÍ ajoelhado à sua frente. EXT. Terreiro da aldeia - DIA WERÁ fala aos presentes. WERÁ Estamos recebendo de volta à aldeia nosso irmão Karaí. Ele passou muitos anos fora do território e volta disposto a ajudar. Ele vai assumir a vaga de professor na nossa escola. Tem que ser respeitado. Qualquer sentimento que sobrou de acontecimentos passados deve ser esquecido. Todos aplaudem a fala de Werá. WERÁ Quer falar alguma coisa para as pessoas Karaí? KARAÍ Obrigado a todos por me acolherem. Me desculpo por qualquer atitude minha do passado que possa ter trazido tristeza. Estou muito feliz de estar de volta. Estou aqui para ajudar a todos. Amanhã já estarei na sala de aula com as crianças. INT. Escola da aldeia - DIA Os alunos vão chegando na escola. KARAÍ fala aos alunos. KARAÍ Bom dia! Para quem não me conhece meu nome é Karaí. Sou o novo professor. Vamos começar. Cada um fale seu nome e o nome de sua mãe. Os estudantes se apresentam um a um. KARAÍ Nossa primeira atividade será um desenho. Desenhe em seu caderno uma cena da aldeia. São mostradas cenas da aldeia, em seguida cenas da sala de aula, mostrando alguns dos desenhos. KARAÍ Desde sempre, os brancos sempre quiseram nossas terras. Eles criam leis e mais leis. A nossa casa de reza, a nossa língua e cultura são o que nos mantém fortes para lutar contra todo mal dos brancos. Por isso nunca se esqueçam de quem vocês são. Vocês são indígenas originários desta terra. Os alunos refletem sobre as palavras de KARAÍ. KAKAI A aula acabou, estão dispensados. Nos vemos na casa de reza. EXT. Beira do rio - DIA WERÁ e KARAÍ estão pescando. WERÁ Veja só, KARAÍ, os brancos colocam armadilhas na floresta. Todo dia estão matando os bichos, não sobrará nada para nós. Não respeitam o tempo de procriação. KARAÍ Isso é terrível, estão prejudicando a fauna e a flora. WERÁ Fauna e flora? Você quer dizer os animais e as plantas? (Werá sorri) KARAÍ Desculpe, fiquei muito tempo com os brancos… WERÁ Mas não é só isso. Você percebeu que a cidade está se aproximando do nosso território? As construtoras são terríveis. Todos são contra a nossa demarcação. Tem uma mineradora me pressionando, não sei mais o que fazer. KARAÍ Calma, Werá. Temos que falar na prefeitura ou procurar um advogado… WERÁ Eles são todos cúmplices… Essa modernidade que a cada dia se aproxima mais das aldeias me assusta. Tenho medo do futuro das crianças. KARAÍ A modernidade traz coisas boas também! WERÁ O que? Celular? Essas tecnologias todas, estão matando a nossa cultura, isso sim. Os jovens não se interessam mais pela casa de reza, nos conselhos da anciã, nos remédios, nas histórias do nosso povo. KARAÍ Verdade. INT. Casa de WERÁ - NOITE WERÁ e PARAH discutem. PARAH Werá, quer comer alguma coisa? WERÁ Não… PARAH Que preocupação é essa? WERÁ Estou preocupado com o futuro da aldeia… São muitas coisas que me preocupam. PARAH Então me fala o que está acontecendo… Sou sua esposa, preciso saber. WERÁ É o de sempre, nada de novo. A empreiteira, a mineradora, sempre estão pressionando, processos contra nossa comunidade, é isso. PARAH E procurar um advogado? WERÁ Não sei… Eu penso que são todos cúmplices… Agora vou fumar, rezar um pouco e me deitar. PARAH Tá bom! Vou terminar de fazer a última cesta e já vou deitar também. Werá e PARAH conversam deitados, sérios. Os dois olham para o teto. WERÁ Mais um mês… Quase um ano que casamos… PARAH Eu sei… Estava sentindo que esse mês ia acontecer… Desculpe… WERÁ Tenho que acordar cedo amanhã… Werá se vira para o lado e dorme. EXT - Beira do rio - DIA WERÁ e KARAÍ estão pescando WERÁ Lembra que a gente vinha muito nesse rio quando criança? KARAÍ É mesmo, né? A gente ficava até anoitecer. WERÁ Tempos bons… Nenhuma preocupação… KARAÍ Lembro uma vez, seu pai foi até a minha casa perguntando de você, e o meu pensava que eu estava na sua casa… Seu pai era um homem muito bom, um grande líder. Ainda não consigo entender o fato dele ter morrido tão de repente. WERÁ Sim. Estava bem, de repente começou com dores, perdeu a vontade de comer… Um dia amanheceu morto. Seu pai também faleceu do nada… KARAÍ É. Outra morte que me marcou foi do pai do Nhamandu. WERÁ Verdade! Até hoje ninguém sabe quem matou ele. Um caçador ou palmiteiro talvez. KARAÍ Penso que pode ter sido alguém aqui da aldeia mesmo… WERÁ (Sem dar continuidade ao assunto) Vamos embora, já pegamos muito peixe. INT - Casa de JACI - DIA PARAH se aconselha com JACI JACI (sentada à beira do fogo com seu cachimbo) Pode sentar aqui perto de mim. PARAH Faz dias que não me sinto bem. JACI começa a fazer a defumação com seu cachimbo, soprando fumaça em PARAH, se concentrando e rezando. As duas estão sentadas perto da fogueira. JACI Esse seu problema não é simples. PARAH Como assim? JACI Tem mais coisa. PARAH Não entendo. JACI Eu tive uma visão. Vou te passar um chá de 3 ervas. É uma preparação muito forte. Você vai ter que tomar de manhã e à noite todos os dias. Não pode interromper. Não é um remédio comum esse. Muito amargo. Vai te fazer vomitar. Ele só vai fazer efeito se você tiver fé. Seu corpo vai ficar cada vez mais fraco, mas se você tiver fé vai sobreviver e vai conseguir engravidar. Está com medo? PARAH Meu único medo é não conseguir engravidar. EXT - Floresta - DIA WERÁ e KARAÍ encontram palmiteiros conhecidos na trilha. KARAÍ dirije-se a um deles, Roberto. WERÁ Roberto… ROBERTO Cacique… WERÁ Vocês sabem que é proibido cortar palmito aqui no território… ROBERTO Achei que essa baixada fosse fora do território. WERÁ Não, tudo pra cá do pinheiral já é nosso. ROBERTO Pois é… Sabe que nós também passamos necessidades? WERÁ A Ambiental me disse para chamar eles quando vocês voltassem… ROBERTO Também temos direito nessa terra. WERÁ Antes de vocês brancos chegarem essa terra já era nossa. ROBERTO Antes de existir branco ou índio existia Deus e a natureza… Nós também temos direito de colher o que Deus oferece na natureza. WERÁ Levem o que já está cortado, mas tem que ir embora daqui. ROBERTO Tudo bem Cacique… Já tamo indo… Os palmiteiros recolhem os palmitos que cortaram e se retiram com olhares desafiadores. WERÁ (para Karaí) Se fosse a gente nas terras deles, iam receber a gente com bala, isso sim. KARAÍ Verdade… INT - Escola - DIA KARAÍ e PARAH conversam na escola. KARAÍ Desde a minha chegada não consegui conversar com você. Como vocês estão? PARAH Tudo bem… Só essa tensão do Werá com os brancos que me deixa nervosa. KARAÍ Quero ajudar se der. PARAH Isso me deixa preocupada, achar uma forma de ajudar o Werá. KARAÍ fecha a porta. Muda de atitude, sério e incisivo, quase agressivo. Segura as mãos de PARAH. Ela tira suas mãos e se vira de lado. KARAÍ Você não quer falar sobre o que aconteceu entre a gente? Você falou que ia me esperar… PARAH Você demorou muito para voltar, tantos anos sem se comunicar! Tinha dúvida até se você tava vivo ou não! KARAÍ Tive que ir embora às pressas. Até ameaça de morte eu tive. Você ama o Werá? PARAH Amo! Werá sempre me tratou com respeito, é o que importa. Estamos tentando ter um filho. Nunca foi para eu e você termos ficado juntos! Foi um erro. KARAÍ Te trouxe um presente… KARAÍ entrega a PARAH um pequeno embrulho. Ela abre. É um colar, uma corrente de metal com um pequeno pendente de coração. Os dois ficam em silêncio por alguns momentos. PARAH abraça KARAÍ repentinamente. Confuso, KARAÍ a abraça de volta e começa a aproximar seu rosto do rosto dela. PARAH se desvencilha do abraço e vai embora sem falar mais nada. Sai correndo da escola, o que WERÁ observa de longe. EXT-Lado de fora de uma casa da aldeia - DIA Duas jovens, JACIARA E SANDRA, conversam sentadas no chão enquanto fazem artesanato. SANDRA Me passe a faca. JACIARA Aqui. SANDRA Quantos você fez? JACIARA Ontem fiz quinze. SANDRA Rápido… JACIARA Quero aprender fazer o brinco de ararinha. SANDRA É fácil, depois te ensino. JACIARA Você acha o Karaí bonito? SANDRA Não sei. Às vezes acho que a cara dele parece um cachorro. Às vezes acho ele bonito. JACIARA (rindo) Eu acho ele bonito. SANDRA Ele era namorado da Parah. Antes de você mudar para cá. JACIARA Não sabia… As duas continuam a fazer artesanato. INT. Casa de reza - DIA Todos estão na casa de reza para uma cerimônia de proteção. PARAH não está presente, ficou em casa, pois se sente mal pelos efeitos colaterais do chá receitado por JACI. WERÁ Gratidão a todos que estão aqui. Jaci vai fazer uma reza para a nossa proteção contra os brancos. JACI se levanta e se posiciona no centro da casa de reza. JACI Nhamandu, pegue meu cachimbo e meu cajado. NHAMANDU Aqui, minha mãe! JACI fuma seu cachimbo e começa a falar. JACI Deus Criador do Universo, das plantas medicinais, dos seres da floresta, proteja nossa aldeia contra todo esse mal que nos persegue. Silêncio total na casa de reza. Os presentes estão posicionados em roda. JACI anda pela roda e pára à frente de cada um, exala fumaça de seu cachimbo e faz orações em Guarani em voz bem baixa, sussurrando orações ao ouvido de cada pessoa, como faz de costume. Ao se aproximar de KARAÍ, dá a ele um recado falando ao seu ouvido. JACI Amanhã te aguardo em minha casa de tarde. Muito importante. Não comente com ninguém. Jaci segue a cerimônia. INT- Casa de JACI - DIA A casa de JACI fica próxima da aldeia, no meio da mata, um pouco retirada. KARAÍ está ajoelhado à frente de JACI, com as mãos sobre as mãos dela, que segura as mãos dele e ora com os olhos fechados. JACI Tive uma visão. Vi um amor. KARAÍ Quem é? JACI Não é assim que funciona. Não vejo rostos. Ouça com atenção. KARAÍ Tá bom. JACI Seu amor parece não correspondido mas a verdade é outra. Ela quer ficar com você. KARAÍ Tem certeza? JACI (pausadamente, entre leves assopros de fumaça do cachimbo) Não questione. Foram feitos um para o outro. Você só vai alcançar o que quer com a verdade! Fale a verdade e conseguirá o que quer. Mentiras e covardia não têm lugar na alma de um guerreiro. JACI gesticula a NHAMANDU e este entrega a ela uma pequena trouxa de tecido. JACI abre a trouxa e mostra o conteúdo a KARAÍ. JACI Aqui, leve isso com você. É um amassado de ervas. Quando precisar de coragem para falar a verdade, mastigue tudo e engula de uma vez 10 minutos antes da conversa. KARAÍ guarda a trouxa de ervas. JACI conclui as orações… JACI Pronto. Siga seu caminho com fé! KARAÍ Obrigado! KARAÍ se retira. NHAMANDU Ele mudou muito. Nem parece a mesma pessoa. JACI Pois é… NHAMANDU Mãe… Penso muito naquilo que fala para mim… JACI O que? NHAMANDU Que terei minha oportunidade aqui na aldeia… Tenho dúvida… Na minha cabeça só me enxergam como Nhamandu, o aleijado. JACI Confie em mim. INT- Casa de JACI - DIA Werá está ajoelhado à frente de Jaci. Ela tem nas mãos um ramo de ervas amarradas com o qual bate nas suas costas com bastante força enquanto reza e fuma seu cachimbo. De repente pára e senta à sua frente ainda fumando seu cachimbo. JACI Você está perdendo sua autoridade na aldeia. WERÁ Como assim? JACI Estão duvidando da sua capacidade de liderança. WERÁ Quem? JACI Todo mundo. WERÁ Como você sabe? JACI Não questione. WERÁ concorda com um aceno de cabeça, resignado. JACI Você tem que ser firme e severo. Confie na sua intuição. Pense bem, mas uma vez que tiver uma opinião não pode mudar. É sinal de fraqueza. WERÁ concorda novamente em silêncio. JACI Tem que mostrar sua força e domínio. Jaci continua as orações. INT. - Casa de WERÁ - DIA WERÁ está sozinho em casa. Está procurando algo. Abre uma gaveta. Encontra o colar que KARAÍ deu a PARAH. INT-Casa de WERÁ - DIA PARAH está terminando de preparar o almoço. WERÁ entra pela porta. PARAH A comida está quase pronta. WERÁ O que tem? PARAH Macarrão e frango. WERÁ começa a comer. PARAH não come. Está se sentindo doente. WERÁ Como foi na escola hoje? PARAH Foi tudo bem. WERÁ Karaí estava lá? PARAH Estava. WERÁ Você não vai comer? PARAH Não agora. Não estou me sentindo bem. WERÁ Você ajudou ele? PARAH Só no final, ajudei arrumar as coisas para a aula de amanhã. Não precisei ajudar com as crianças. KARAÍ E aconteceu alguma coisa? PARAH Não. Por que pergunta? WERÁ Te vi sair correndo de lá, achei que podia ter acontecido alguma coisa. Nunca te vi correr. PARAH Eu corro, sim, de vez em quando. Não aconteceu nada… WERÁ Estou sem fome. Tenho que sair.… WERÁ deixa o prato pela metade e sai. PARAH vomita no chão. INT. Escola - DIA WERÁ entra na sala de aula e encontra KARAÍ corrigindo avaliações. WERÁ Está ocupado? KARAÍ Corrigindo provas. Mas posso fazer mais tarde. WERÁ Vamos comigo até a beira do rio. KARAÍ Claro. Algo urgente? WERÁ Quero te mostrar uma coisa. KARAÍ Me dê um minuto, só preciso guardar essas provas. KARAÍ guarda as provas em uma gaveta na sala de aula. Se dirige para a sala ao lado e ingere o amassado de ervas que Jaci tinha dado para ele. WERÁ, discretamente, também ingere um amassado de ervas enquanto KARAÍ não volta. EXT. Beira do rio - DIA WERÁ e KARAÍ conversam. KARAÍ se sente entorpecido pela substância que ingeriu. WERÁ Aqui é o lugar onde meu pai foi encontrado morto. KARAÍ Pensei que ele tinha morrido durante a noite dormindo. WERÁ Não. Ele estava com febre, se levantou de madrugada, falou alguma coisa sem sentido para minha mãe, pintou o rosto e saiu andando. Eu estava dormindo, não vi nada. KARAÍ Quem encontrou ele? WERÁ Nhamandu. Falou que encontrou ele caído no barranco, bateu a cabeça numa pedra. Ninguém mais viu nada. Ficam em silêncio por alguns momentos. KARAÍ Eu também tenho uma coisa para te falar. WERÁ O que? KARAÍ Eu ainda amo a Parah. E ela me ama também. WERÁ Eu sabia que tinha algo errado. Você sabe que não vai poder ficar na aldeia, tem que ir embora. Ela não te ama! KARAÍ E se eu não for embora? WERÁ Eu mato vocês dois. KARAÍ Ela não tem culpa. Nós fomos feitos um para o outro. WERÁ Cala a boca! Porque você acha que ela te ama? Porque você deu isso para ela? WERÁ tira do bolso o colar que KARAÍ tinha dado a PARAH. Joga o colar barranco abaixo. Tira uma faca da cintura, corta a palma da mão, esfrega o sangue no rosto, observado por KARAÍ, que fica assustado com a situação. WERÁ se retira em seguida andando rapidamente em direção à aldeia. KARAÍ desce para a beira do rio para procurar o colar. INT. - Casa de WERÁ - DIA WERÁ entra pela porta. PARAH está deitada na cama. WERÁ Falei com o KARAÍ. Já estou sabendo de tudo. Ele vai embora. PARAH está imóvel na cama. WERÁ Você não vai falar nada? WERÁ vira PARAH na cama. Percebe que está morta. Começa a gritar. WERÁ Não! Não! Não! Não! Não! WERÁ se ajoelha e dá um beijo na boca de PARAH. O rosto e pescoço de PARAH ficam sujos com o sangue de WERÁ, que ainda sangra do ferimento da mão. WERÁ sai apressadamente pela porta. EXT - Mata nas proximidades da casa de WERÁ - DIA KARAÍ se dirige à casa de WERÁ vindo pela mata. Ainda a certa distância, quase chegando, vê WERÁ saindo da casa e caminhando apressadamente em direção ao outro lado da mata, em direção à casa de JACI. KARAÍ entra na casa. INT - Casa de WERÁ - DIA KARAÍ encontra PARAH deitada, morta. Ele a abraça. KARAÍ Por quê? Por quê? KARAÍ ouve um ruído. Olha em direção à porta, não vê nada. Ajeita PARAH suavemente na cama e acaricia seu rosto. Se levanta com a intenção de checar o lado de fora da casa, mas quando vira em direção à porta WERÁ já está em pé bem à sua frente e dá uma facada em seu coração. KARAÍ segura a mão de WERÁ com as duas mãos e olha em seus olhos sem falar nada. Respira fundo algumas vezes lentamente enquanto vai perdendo a força nas pernas e finalmente perde os sentidos e cai lentamente sendo amparado por WERÁ, que o deixa deitado no chão. WERÁ sai correndo pela porta. Chega à beirada do rio, entra em uma canoa e sai remando rio abaixo. EXT - Cemitério da aldeia - DIA PARAH e KARAÍ acabaram de ser sepultados. Algumas pessoas choram ajoelhadas ao lado das sepulturas. Um grupo de líderes da comunidade reunido um pouco mais distante discute a decisão de quem vai ser o novo cacique com a fuga de WERÁ. MAURO - que estava junto com as pessoas ao lado das sepulturas - levanta-se e junta-se ao grupo de líderes. JACI também está presente. MAURO Conseguiram decidir alguma coisa? SERGIO Ainda não. JURANDIR Tem três pessoas querendo assumir a liderança da aldeia. SERGIO Jaci deve encontrar a resposta nas orações. MAURO E todo mundo está de acordo? SERGIO Sim. MAURO (fala a JACI) A senhora concorda? JACI Preciso de uma semana de recolhimento para interpretar minhas visões, é uma decisão muito importante. E preciso da garantia de vocês que não vai ter questionamento sobre a decisão. Todos se entreolham e concordam com um gesto de cabeça. INT - Casa de JACI - DIA JACI está fazendo um tratamento em NHAMANDU. Dá para ele beber uma bebida em uma cuia. Faz algumas orações. Pega sua mão. Aperta a unha de um de seus dedos com força. JACI Sente dor? NHAMANDU Não. JACI Já fez efeito. Vamos fazer agora. Feche seus olhos e não pense em nada. NHAMANDU Tá bom. NHAMANDU aguarda com os olhos fechados e parece entorpecido. Está deitado de lado, com um tronco entre suas coxas. Uma corda está amarrada ao redor de seus joelhos. JACI se coloca em pé segurando a parte de cima da corda, apóia o pé no joelho de cima e em um movimento decidido puxa a corda para cima lentamente mas com força, esticando sua perna, aproximando os joelhos de NHAMANDU. NHAMANDU dá um grito de dor que ecoa na mata. INT - Casa de reza - DIA JACI está ajoelhada sentada em seus calcanhares, olhos fechados, meditando, com o cocar cerimonial em um tronco fincado à sua frente. Todos os presentes sentados em uma roda. MAURO, SERGIO e JURANDIR estão sentados em uma linha no centro da roda. JACI Fiz um recolhimento por uma semana e tive a visão do próximo líder da aldeia. É a decisão dos nossos ancestrais. Preciso que confirmem um a um, na frente de todos os presentes, que irão respeitar a decisão. Mauro? MAURO Sim. JACI Sérgio? SERGIO Sim. JACI Jurandir? JURANDIR Sim. JACI (se dirigindo aos demais presentes) Todos aceitam a decisão que vai ser revelada? Todos os presentes concordam - alguns acenam afirmativamente com a cabeça, alguns dizem “SIM”. JACI pega o cocar em suas mãos. JACI Grande espírito Criador do mundo, nosso Criador, espíritos da floresta, dos rios, da terra… Revelo agora a decisão de nossos ancestrais. JACI caminha lentamente até NHAMANDU e coloca o cocar em sua cabeça. Ele parece surpreso de início mas fecha os olhos e respira fundo, com o semblante sereno. SÉRGIO, MAURO e JURANDIR estão surpresos e visivelmente desapontados. Um burburinho se inicia entre os presentes. MAURO se levanta. MAURO Silêncio! Silêncio! Em nome de nosso conselho de liderança confirmo que aceitamos NHAMANDU como o cacique da aldeia. NHAMANDU se levanta e caminha até o centro da roda. Caminha firmemente com postura ereta, sem mancar. MAURO se aproxima de NHAMANDU e os dois trocam um abraço formal. Começa uma música cantada pelo coral. NHAMANDU fica em pé com os braços abertos, é colocado um manto em seus ombros e também são entregues a ele um caximbo cerimonial (Petiguã) e um cajado. NHAMANDU faz uma saudação a JACI, ao conselho de liderança e aos demais, cruzando os braços sobre seu peito. É mostrado um recorte de cenas enquanto a música toca, mostrando JACI conversando com PARAH, KARAÍ, WERÁ, NHAMANDU, e diversas outras pessoas da comunidade, mostrando seu domínio e influência sobre a comunidade. EXT - Posto de Gasolina - DIA WERÁ, sujo e maltrapilho, se aproxima de um caminhoneiro que está prestes a sair de viagem. WERÁ Licença. CAMINHONEIRO Pois não? WERÁ Preciso uma carona. CAMINHONEIRO Estou indo para Campo Grande. Mas só tenho lugar junto com a carga. WERÁ Pode ser. CAMINHONEIRO Sobe aí. Vou sair em 10 minutos. Se a polícia parar e te achar tem que falar que subiu sem eu ver. WERÁ Tá bom. WERÁ se acomoda na carroceria junto com a carga. O caminhoneiro termina de checar os pneus e sai em viagem. (Fim)